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Artigo publicado em 29/8/2006 no jornal O Globo, por Arnaldo Jabor, sob o título: “Burrice no poder chama-se fascismo.” e republicado no jornal O Povo, de Fortaleza.
Burrice no poder chama-se fascismo
Arnaldo Jabor, 29/08/2006
A reunião dos intelectuais e artistas com Lula, no Rio, destampou a panela da verdade. Quando dizem: “Os fins justificam os meios, mensalão não é crime” ou “Não estou preocupado com a ética do PT nem com qualquer ética. Isso não interessa; eu acho que o PT fez o que tem de fazer para governar o País…”, esses bravos criadores de arte e pensamento estão trazendo à luz do dia, num ato falho espetacular, a verdadeira ideologia que orienta o PT.
Os petistas do governo ficam enrolando e, aí, vêm uns artistas ingênuos e abrem o jogo cuidadosamente escondido. Prestaram um serviço à verdade, porque muita gente boa repete, como robôs do Lula: “Sempre foi assim, corrupção endêmica, sobras de campanha, houve erros éticos, todos os partidos fizeram isso…”
Esta falsa explicação é enlouquecedora, porque ilude, elide a verdade meridiana que é a seguinte: não foi apenas um desvio ético ou uma roubalheira tradicional. Não. Foi um plano armado para mudar o Estado por dentro, por um bando de sujeitos que se consideram superiores a nós, com a missão de usar a democracia para apodrecê-la. Ideólogos ignorantes e narcisistas tentaram mais uma revolução ridícula, que não rolou. Aliás, erram sempre e continuarão a errar. No entanto, é espantoso que gente que estudou e que come continue a achar que foi caixa dois ou desvio ético de alguns companheiros. A barra foi muito mais pesada. E pode voltar a ser.
Os quadrilheiros do governo não são de esquerda, não; são de direita, autoritários. Não só desviaram bilhões de reais de aparelhos do Estado, de fundos de pensão, por contratos falsos, mas roubaram também nossos mais generosos sentimentos. E não é só a mentira que indigna. É a arrogância cínica com que mentem. E a mentira vai se acumulando como estrume e acaba convencendo muitos ingênuos.
Sempre houve corrupção no Brasil? Claro que sim, mas o ladrão tradicional sabia-se ladrão, roubava em causa própria e se escondia pelos cantos para não ser flagrado. Os ladrões desse governo roubam de testa erguida, como se estivessem fazendo uma ação revolucionária. Dizer que sempre foi assim é burrice ou má fé.
Segundo Tempo
Não tem papo: Lula está reeleito. E, num segundo mandato, haverá uma obstinada tentativa de desmanchar os escândalos do chamado mensalão, desde os dólares na cueca até a morte de Celso Daniel e Toninho do PT, como já insinuam, dizendo que são “mentiras sobre supostos crimes sem comprovação…”
As chamadas forças populares, que ocupam os 40 mil postos no Estado aparelhado, permanecerão nas “boquinhas”. As agências reguladoras serão assassinadas. Os sinais estão claros, com várias delas abandonadas e com indícios de que o PMDB já quer diretorias, que o PT cederá com prazer.
O Banco Central deve perder possibilidade de autonomia, pelo que já declaram os membros do comitê central. A era Meirelles-Palocci será queimada, velho desejo de Dirceu e camaradas. Qualquer privatização essencial, como a do IRB e Correios, por exemplo, será esquecida. A Lei de Responsabilidade Fiscal será desmoralizada por medidas atenuantes, como já sinalizou Tarso Genro que, a julgar por seus ademanes conciliatórios, talvez queira ser presidente em 2010.
Os gastos públicos aumentarão e não haverá cortes. A obsessão do controle sobre a mídia e a cultura voltará, como tentaram no início do primeiro tempo. Certas leis chatas serão ignoradas, como Lula já está fazendo com a lei que proíbe reforma agrária em terras invadidas ilegalmente, esquecendo-a de propósito.
Aliás, a evidente tolerância com os ataques dos MSTs da vida mostra que, além de financiá-los com mais de seis milhões num ano, este governo quer mantê-los unidos e fiéis, como uma espécie de guarda pretoriana, caso a crise política se agrave. Não duvidem, eles serão os peões de Lula.
Tucanos Cegos
Por outro lado, assim como o petistas e Lula desqualificam a seriedade, o PSDB atual desmoraliza a social-democracia moderna. Afinal, o que é o PSDB? Que partido é esse, sem plataforma, sem símbolo, a não ser uma aguada candidatura, posando de limpinha, um partido que não berra, não urra, não deseja nada? O que é o PSDB, para além do que FHC formulou e Serra projetou? Onde está a herança da fundação, de Montoro, de Covas? Ninguém sabe. Desorientados, divididos e ociosos, não têm bala para competir com o carisma cínico e populista do Lula. Já eram.
É isso aí. Intelectuais e artistas votarão em Lula de novo porque não têm opção legível ou porque, no duro, acham que o lulo-dirceuzismo estava certo e que o PT e sua quadrilha fizeram bem em assaltar o Estado para um fim revolucionário. Na moita – porque não se declaram – não são democráticos. Deus os perdoará, pois não sabem o que fazem… Não sabem que jogaremos fora a única revolução possível no País, que seria o enxugamento de um Estado que come a Nação, inchado de privilégios e clientelismo, um Estado que só tem para investir 0,5% do PIB.
A única revolução seria administrativa, apontada na educação em massa, nas reformas institucionais. O único consolo é que, graças a Deus, a macro foi herdada e mantida por Palocci e a economia mundial está bombando. Rezemos também para que não haja uma grave crise mundial, pois poderão pipocar bravatas antiimperialistas, exaradas pela política do nosso Itamaraty revolucionário.
De modo que as frases de artistas e intelectuais que temos ouvido, dentro e fora da Academia, não só denotam a pobreza de sua cultura política como sintetizam, iluminam e até mesmo alcagüetam as verdadeiras intenções da quadrilha que continuará no poder e que poderá tentar um chavismo cordial.
O atraso do País será perpetuado em nome da burrice “progressista”. O diabo é que burrice no poder chama-se fascismo.
Artigo publicado em 25/4/2006 no jornal O Estado de São Paulo, por Arnaldo Jabor, sob o título: “A verdade está na cara, mas não se impõe.” e republicado no jornal O Povo, de Fortaleza.
A verdade está na cara, mas não se impõe
Arnaldo Jabor, O Estado de São Paulo, 25/04/2006
O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, “explicáveis” demais. Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na história brasileira.
Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias. Claro que não esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada, broxa.
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos. Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os teipes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata.
Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão na bunda. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de “povo”, consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações “falsas”, sua condição de cúmplice e comandante, em “vítima”. E a população ignorante engole tudo.
Como é possível isso? Simples – o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados – nos comunica o STF. Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo. Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito…
Está havendo uma desmoralização do pensamento. Deprimo-me: “Denunciar para quê? Indignar-se com quê? Fazer o quê?”. A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo. A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais aos fatos! Pior: que os fatos não são nada – só valem as versões, as manipulações.
No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do País e deixou-nos ver os intestinos de nossa política.
Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador geral da República. São verdades cristalinas, com sol a pino. E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de gafe. Lulo-petistas clamam: “Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT? Como ousaram ser honestos?”.
Sempre que a verdade eclode, reage. Quando um juiz condena rápido, é chamado de “exibicionista”. Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de finesse do governo de FHC, que não teve a delicadeza de avisar que a Polícia estava chegando…
Mas, agora é diferente. As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para coonestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma “novilíngua” empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte.
Toda a complexidade rica do País será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o País em “a favor” do povo e “contra”, recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o “sim” e o “não”, teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição mundo x Brasil, nacional x internacional. A esquematização dos conceitos, o empobrecimento da linguagem visa à formação de um novo “ethos” político no País, que favoreça o voluntarismo e legitime o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois.
Assim como vivemos (por sorte…) há três anos sem governo algum, apenas vogando ao vento da bonança financeira mundial, só espero que a consolidação da economia brasileira resista ao cerco político-ideológico de dogmas boçais e impeça a desconstrução antidemocrática. As coisas são mais democráticas que os homens.
Alguns otimistas dizem: “Não… este maremoto de mentiras nos dará uma fome de verdades!” Não creio. Vamos ficar viciados na mentira corrente, vamos falar por antônimos. Ficaremos mais cínicos, mais egoístas, mais burros.
O Lula reeleito será a prova de que os delitos compensaram. A mentira será verdade e a “novilíngua” estará consagrada.
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