Recentemente um contribuinte deste blog enviou link com artigo de autoria da atriz Maitê Proença entitulado “O Jogo ou A Fome“ sobre uma alternativa para o Nordeste. Maitê sugere:
Por que não criar uma Las Vegas brasileira no polígono das secas? Milhares de empregos seriam gerados durante as obras, e posteriormente, com o funcionamento dos cassinos, restaurantes e teatros.
Sem entrar no mérito sobre a questão da eficiência dessa solução, esse artigo incita a fazer outra pergunta: o problema do Nordeste realmente existe, está sendo criado artificialmente, ou, pelo menos, a situação precária do nordestino não está sendo mantida no mesmo buraco por décadas para benefício de outros?
Aldo Rebouças, em seu estudo entitulato ”Água na região Nordeste: desperdício e escassez” apresenta vários aspectos dessa crise da água e nos faz refletir sobre quem está se beneficiando dela e por que tantos brasileiros se acostumaram e se acomodaram com ela.
A avaliação do problema da água de uma dada região já não pode se restringir ao simples balanço entre oferta e demanda. Deve abranger também os inter-relacionamentos entre os seus recursos hídricos com as demais peculiaridades geoambientais e sócio-culturais, tendo em vista alcançar e garantir a qualidade de vida da sociedade, a qualidade do desenvolvimento sócioeconômico e a conservação das suas reservas de capital ecológico.
As condições físicoclimáticas que predominam na região Nordeste do Brasil podem, relativamente, dificultar a vida, exigir maior empenho e maior racionalidade na gestão dos recursos naturais em geral e da água, em particular, mas não podem ser responsabilizadas pelo quadro de pobreza amplamente manipulado e sofridamente tolerado. Destarte, o que mais falta no semi-árido do Nordeste brasileiro não é água, mas determinado padrão cultural que agregue confiança e melhore a eficiência das organizações públicas e privadas envolvidas no negócio da água.
E nos faz refletir sobre o que falta ao governantes e, principalmente, ao povo brasileiro quando confrontado com alguns dados sobre outro país que enfrenta condições climáticas muito mais severas do que o Nordeste:
O caso de Israel, atualmente outra das potências agrícolas do mundo, é exemplo dos mais contundentes. Sobre o seu território, de aproximadamente 21 mil km2, a pluviometria média varia entre 800 mm/ano no Norte e 30 mm/ano no Sul. A extensão de terras agrícolas é de apenas 450 mil Ha, localizada no setor que recebe pluviometria inferior a 200 mm/ano e sujeita à ocorrência de seca um ano sobre três.
Porém, à medida que os métodos tradicionais de irrigação (espalhamento,pivô central, aspersão convencional e similares) foram sendo substituídos por outros mais eficientes (microirrigação, fertirragação e similares) houve incremento de seis vezes da superfície irrigada nos últimos 40 anos, atingindo atualmente cerca de 200 mil Ha. O maior fator limitante sendo a disponibilidade de água, a solução encontrada foi a busca de maior produtividade. Na última década, o incremento médio anual de produtividade por unidade de água utilizada ficou entre 5 e 6%. A eficiência dos métodos de irrigação já atinge 80 a 90%, contra os 30% em média nos países tradicionais situados em faixas climáticas menos severas e que têm suas economias fortemente dependentes da agricultura.
As secas que ocorreram entre 1987-91 engendraram uma redução de 29% nos recursos de água de Israel: de 1.987 milhões m3 em 1987 para 1.420 milhões m3 em 1991. Tal situação não acarretou perda na produção agrícola ou redução do crescimento econômico. Além disso, houve incremento na eficiência no uso da água pelo setor agrícola da ordem de 40% no período: de 1.434 milhões m3 em 1986 para 875 milhões m3 em 1991.
Quem se beneficia com a política da Crise da Seca? Por que a área do Polígono das Secas, delimitado pela Lei nº 1348 de 10 de fevereiro de 1951, tem sido tão extensivamente ampliada? Até quando vamos acreditar nessa ilusão e continuar culpando a natureza pela falta de determinação, de cultura e de vergonha do nosso próprio povo?
REBOUCAS, Aldo da C. Água na região Nordeste: desperdício e escassez. Estud. av. [online]. 1997, vol. 11, no. 29 [cited 2007-04-10], pp. 127-154. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141997000100007&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0103-4014. doi: 10.1590/S0103-40141997000100007